Quem conhece o centro do Rio sabe que no Largo de São Francisco existem
várias lojas de departamento, bares, lanchonetes, papelarias e restaurantes. Aos
sábados, quando a repressão dos guardas municipais é inexistente, os ambulantes
fazem a festa, vendendo de tudo o que se possa imaginar, desde utilidades para o
lar até as últimas novidades em eletro-eletrônicos, tudo 'made in Paraguai'.
"Eles" começam a chegar próximo ao meio-dia. Vê-se um aqui, outro ali,
alguns deitam-se nos bancos em frente à Faculdade de Direito, outros preferem
ficar na calçada da Igreja. Quando o relógio do Mosteiro de Stº Antônio bate uma
da tarde, já se pode contar mais de uma dúzia, com suas roupas esfarrapadas e
seus sacos plásticos nas mãos. As lojas começam a fechar suas portas, e isso
parece ser o sinal para que "eles" despertem da aparente sonolência.
Aglomeram-se em frente àquela que tem um restaurante popular, mas ainda não se
atrevem a atravessar a rua. Pode-se avistar algumas crianças muito pequenas em
meio aos adultos, todas com algum utensílio à mão, seja um prato amassado ou uma
lata enferrujada, os olhos impacientes fitos na porta que a qualquer momento
pode se abrir. Eles precisam estar atentos, pois chegar na frente pode
significar a diferença entre comer ou ficar mais um dia de barriga
vazia. Ao primeiro sinal de movimentação próximo à porta,
todos tomam seus lugares para a batalha que vai começar. Finalmente, depois e
uma longa e tortuosa espera, os homens saem de dentro da loja, trazendo imensos
sacos de lixo cheios de restos de comida. Atravessam a rua e colocam os dois ou
três sacos no chão, isso quando conseguem. Em geral, dezenas de mãos ávidas
começam a tentar retirar os sacos das mãos dos funcionários da loja, que os
jogam de qualquer maneira, felizes em poder se livrar logo daquela tarefa. O que
se vê a seguir são cenas lamentáveis que mostram a quantas pode chegar a
degradação humana: pessoas enfiam as mãos dentro dos sacos de lixo e recolhem os
restos de comida do restaurante. Podemos ver aquela gosma escorrendo por entre
os dedos sujos e mal-cuidados dos moradores de rua, restos do que já foi comida,
mas que agora não seria decente para alimentar nem mesmo um animal de estimação.
Mas eles não têm outra escolha senão devorar com voracidade aquela "lavagem"
fria e mal-cheirosa.
Mulheres e crianças, em desvantagem física, tentam
conseguir alguma sobra que alivie a fome, já que nessa guerra desumana não se
reconhece o direito dos mais frágeis, é cada um por si.
Em poucos minutos só restam os sacos vazios, jogados pelo
chão. Os cães se aproximam para tentar lamber o que sobrou. Algumas pessoas, com
mais sorte, sentam-se no meio-fio para saborear aquela que será a primeira e
única refeição do dia; outras, lamentam-se e desesperam-se, pois aquele será
mais um longo dia de fome.
Isso acontece diante de olhares impassíveis e sorrisos
cínicos dos que já se habituaram com a cena, repetida semanalmente. Alguns,
pouco acostumados com aquilo, ainda param e olham, sem acreditar no que estão
vendo. Mas também esses se vão, e logo mais, no conforto dos seus lares, nem
lembrarão que presenciaram cena tão grotesca. Terá sido apenas mais um sábado no
centro do Rio. Quanto a mim, paro e guardo na memória para mais tarde tentar
descrever da melhor maneira possível. Não me permito esquecer que em meu país
pessoas ainda lutam por restos de comida deixados no chão em pleno século
XXI.
Longe dali, em Brasília, o Presidente da República solta
rojões porque o PIB cresceu 5,4% no ano que passou.
E para melhorar o astral, nada melhor do que ouvir "Hey Jude", sucesso
dos Fab four, na voz dessa fofura de bebê coreano que anda fazendo o maior
sucesso no Youtube. E olha que ele canta bem melhor que muito artista famoso por
aí...
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